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Magia no Gelo - A adaptação de uma produtora de espetáculos em tempo de pandemia

BY NUNO BARBOT, CEO AM EXPERIENCE GROUP | 31/08/2021

Pois é, parece que foi ontem! E foi…

02/03/2020

A Ministra da Saúde anuncia os dois primeiros casos de pessoas infetadas com o novo coronavírus.

08/03/2020

A Direção-Geral da Saúde (DGS) anuncia o encerramento de todas as escolas e a suspensão de atividades em todos os estabelecimentos de lazer ou culturais dos concelhos de Lousada e Felgueiras, no distrito do Porto.

09/03/2020

São anunciados em catadupa adiamentos e cancelamentos de iniciativas diversas (de feiras e festas locais a congressos e grandes eventos); são encerrados ou condicionados os acessos a alguns serviços públicos e condicionadas visitas a hospitais; e escolas de norte a sul suspendem as aulas presenciais, incluindo universidades.

12/03/2020

O número de infeções em Portugal sobe para 78.

O Governo decide que todas as escolas de todos os graus de ensino suspendem as atividades presenciais, medida que será reavaliada a 09 de abril.

13/03/2020

O número de infeções sobe para 112. O Presidente da República promulga o diploma do Governo com medidas extraordinárias e avisa que a pandemia "pode ser mais grave e duradoura", exortando os portugueses a mobilizarem-se.

Os funcionários públicos são instados a ficar em casa em regime de teletrabalho.

A Conferência Episcopal Portuguesa suspende as missas, catequeses e outros atos de culto.

18/03/2020

O Presidente da República decreta o estado de emergência por 15 dias, depois de ouvido o Conselho de Estado e de ter obtido o parecer positivo do Governo e da aprovação do decreto pela Assembleia da República.

O estado de emergência contempla o confinamento obrigatório e restrições à circulação na via pública. A desobediência é crime e pode levar à prisão.

Perplexos com a evolução da pandemia, desde muito cedo tivemos claro que teríamos desafios muito grandes pela frente e que a realização de espetáculos ao vivo, no final de 2020, parecia estar em causa por vários fatores:

  1. Risco de uma segunda vaga com possibilidade de um novo lockdown;
  2. Risco económico com possível degradação do poder de compra das famílias;
  3. Risco psicológico que a pandemia poderia deixar nos principais públicos dos nossos espetáculos (Escolas; Público Geral; Empresas; …);
  4. Risco legal derivado das permanentes alterações legislativas com impacto na nossa atividade, que tornasse inviável a aplicação do modelo de negócio existente;
  5. Risco de não existir tratamento ou vacina até ao final do ano dado que todas as autoridades confirmavam que, a existir uma vacina, ela não estaria disponível no mercado antes de 2021;
  6. Tendência das famílias protegerem os seus ativos mais preciosos, apesar de, aparentemente, serem os menos afetados (em termos de novos casos e de mortalidade): as crianças.

Convictos de que a realidade que conhecíamos tinha mudado, afiguravam-se duas alternativas:

  • Cancelar os espetáculos ao vivo em 2020/21 e reestruturar a empresa, reduzindo significativamente a sua estrutura;
  • Criar uma nova área de negócio, com base no know-how “dentro de portas”, respondendo às necessidades do mercado, tentando fazer uma leitura muito rápida, quase frenética, da evolução do estado de coisas. Uma nova área que garantisse a criação de valor necessária para todos: colaboradores; clientes; parceiros; acionista.

Devo confessar que a primeira tentação foi a de optar pela primeira alternativa mas, muito cedo, várias circunstâncias nos levaram rapidamente a deixar de a considerar.

Porquê? Porque estávamos a viver um período verdadeiramente excecional e sentimos que ele obrigava a uma postura, também ela, excecional. Assim, o caminho teria de passar por encontrar uma nova solução de negócio, garantindo todos os postos de trabalho e não traumatizando ainda mais as nossas pessoas que tanto nos deram ao longo dos últimos anos. Não seria justo tomarmos medidas que as afetassem e nem nós estávamos psicologicamente preparados para o fazer. Era-nos exigida uma elevação especial que nem nós sabíamos se estaríamos à altura do cumprimento da mesma.

Num processo inicial, ainda um pouco solitário, fomos solidificando a ideia de que o caminho poderia passar por criar um projeto totalmente digital com o argumento de que ele respondia às tendências que diariamente nos apareciam, de estudos com origens diversas, em cima da mesa, 100% seguro para as famílias e com um preço significativamente mais reduzido.

Foram criadas as bases de um modelo de negócio que se baseava na reedição dos espetáculos do ano anterior, transpondo-os para o digital e, assim, respondendo ao desafio. Toda a solução passava por minimizar o risco e, consequentemente, o investimento.

No final de março, confrontada com a proposta de “caminho”, a equipa foi dando um feedback difuso. Algumas pessoas sentiam que esse poderia ser um “caminho” interessante e outras sentiram pouco valor acrescentado na solução para poder ser monetizável e foi então que se criou um grupo de trabalho para se criar o ‘produto’. Criar algo em que todos acreditássemos ser uma “solução irresistível”. Esse era o desafio e o foco passou a ser reunirmos, durante muitos dias, muitas horas, quase até à exaustão, para irmos desenhando o produto…num processo que muitas vezes designámos ter-se traduzido na maior vivência profissional das nossas vidas. E foi isso que sentimos durante o processo. Que as ‘pontas’ iam ficando ligadas e que tudo ia fazendo sentido. Que não havia brechas capazes de “afundar o barco” e que tínhamos na equipa a garantia que, do ponto de vista dos conteúdos, eles teriam a qualidade a que a AM LIVE sempre nos habituou.

Chegámos a Junho com a arquitetura de produto criada e passámos à definição de preço, ao mesmo tempo que procurávamos um parceiro na área da TI para nos apoiar na materialização/programação das nossas ideias. Foi então que um dos nossos Colaboradores trouxe para o seio da equipa o contacto de uma empresa com a qual criámos uma verdadeira parceria win-win e que, para além de aportar valor na vertente tecnológica, nos passou a apoiar nas vendas (com especial enfoque nas marcas), nos preços e no próprio produto, introduzindo o seu contributo de forma construtiva. Com base nesta parceria, em Julho tínhamos já “fechado” o produto; a marca; o preço; os targets e começámos a materializar o plano de conteúdos e o portal propriamente dito. Começámos também o processo de vendas, sendo que tínhamos um ponto menos bem desenvolvido do ponto de vista dos recursos, fruto da menor capacidade de investimento para um primeiro ano – a comunicação. Foi então que surgiu a oportunidade de conseguirmos ter um media partner que, também ele, acreditou no projeto e decidiu apoiar-nos sem qualquer “investimento à cabeça”, mas com uma remuneração bastante atrativa baseada na angariação de receitas. Com base nesta parceria, robusteceu-se o plano de comunicação e o produto passou a ter todos os ingredientes para estar, acreditamos nós, “condenado ao sucesso”.

E é de sucesso que falamos… mesmo antes do projeto nascer/ser apresentado ao público. A Magia no Gelo é o produto/resultado dos contributos e elevado empenho de uma equipa que hoje, também ela, carrega consigo este orgulho que já ninguém lhes tira. O orgulho de, num momento tão difícil como o que ainda vivemos, nos termos conseguido superar e contrariar a apatia que nos poderia invadir a alma. Chegados a esta fase, só posso dizer que todos foram bravos e que o futuro só nos pode reservar coisas boas. Confio muito nisso. Tenho a certeza disso!

Pessoalmente, este projeto constituiu uma fase de grande crescimento pessoal. Também eu, confinado em 4 paredes, sentindo uma elevada pressão pela responsabilidade que me tinha sido depositada pela função que ocupo, percebi que este era, também ele, o momento da minha vida. E foi com esse espírito que eu próprio me desafiei e que, mais uma vez, confirmei que, sem uma equipa, não somos ninguém enquanto gestores. Na verdade, não somos ninguém enquanto pessoas. Sozinhos, somos apenas seres vivos!

Sou muito grato a esta equipa. Sei que durante este processo, muitas vezes a desafiei, enervei, desconcertei e tantos mais “eis”. Deixei as “minhas” pessoas com mais dúvidas do que certezas, mas sabia que se havia momento para nos lançarmos ao desconhecido, este era o momento. Sou grato porque esta equipa acreditou em mim e se lançou comigo para o escuro no qual, em conjunto, fizemos a luz que agora nos guia rumo ao futuro.

Não sei se o que fiz, fiz bem. Nunca vou ter essa resposta porque nunca vou saber o resultado de ações diferentes. Mas uma coisa sei: sei que fiz o melhor que sabia e que coloquei todo o meu saber ao dispor deste momento de loucura coletiva, tentando, a todo o momento, fazer as melhores interpretações, identificar os melhores insights e tomar as melhores decisões num processo muito atribulado.

Este foi, sem dúvida, o maior desafio da minha vida porque se cruzou o desafio profissional ao próprio desafio pessoal. De saber lidar com a solidão. De aprender a confiar ainda mais nos outros. De lidar com o(s) medo(s). De não poder abraçar e ver quem queria ver e com isso perder o equilíbrio e controlo que precisava.

Apesar de tudo isto, garanto-vos que, por detrás destas palavras, está um sorriso. Um sorriso enorme que me faz predizer que o nosso futuro se continua a fazer a criar sorrisos!

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